Artigo: E de repente... tudo muda!
Por Vladimiro Silva

A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro. Esta frase, que na verdade é da autoria de John F. Kennedy, acaba por se aplicar na perfeição ao tratamento da infertilidade. Em primeiro lugar porque é isso que os casais procuram: uma mudança nas suas vidas, a concretização de um sonho, a criação de uma família ou o alargamento da que já existe, uma nova forma de viver, do casal se relacionar entre si e com a sociedade. Ter filhos é mudar, é dar o passo seguinte, é a materialização do sentido que todos procuramos para a vida. É, pois, partir para o futuro e para a felicidade que todos ambicionamos.
A Medicina enquanto ciência é uma espécie de escadaria gigante, constituída por pequenos degraus e ilhotas de mudança que diariamente se vão integrando na prática clínica quotidiana. De vez em quando há passos em falso ou tábuas soltas, mas ocasionalmente existem também patamares mais altos, só possíveis de atingir com saltos significativos e dos quais muito dificilmente se poderá cair. Na evolução tecnológica das ciências médicas surgem alguns progressos deste género, cuja aplicação no dia-a-dia altera de tal forma a leges artis, que haverá sempre um antes e um depois destes momentos. 
No caso do tratamento da infertilidade os progressos importantes têm sido impressionantes e sempre com um impacto verdadeiramente revolucionário quer na vida dos profissionais que lutam para ajudar os casais, quer dos próprios casais, pois actualmente todos os dias conseguimos pequenos milagres, que vemos concretizados no sorriso de bebés que até há poucos anos não teriam qualquer possibilidade de nascerem. Foi assim quando em 1960 o Prof. Bruno Lunenfeld apresentou ao mundo a utilização clínica das gonadotrofinas urinárias, foi novamente assim em 1978 quando Robert Edwards e Patrick Steptoe conseguiram o primeiro nascimento após a realização de um tratamento de fecundação in vitro, voltou a ser assim quando Gianpiero Palermo reportou o nascimento da primeira criança após a realização de microinjecção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI) em 1992 e está a ser novamente assim agora que em todo o mundo se começa a utilizar o Embryoscope, a mais recente evolução no tratamento da infertilidade. Em termos muito simplistas, este sistema consiste numa incubadora com uma câmara de vídeo acoplada, que permite cultivar e observar os embriões sem manipulação, preservando a estabilidade da cultura ao mesmo tempo que possibilita o acesso a informações importantíssimas sobre a forma como os embriões evoluem nas suas primeiras horas de vida.
O Embryoscope, que recorre à tecnologia de video time-lapse, é em primeiro lugar uma incubadora que assegura níveis de estabilidade e pressão relativa de gases medicinais quase inigualáveis, com um controlo extremamente rigoroso do ambiente em que os embriões se desenvolvem, o que faz com que seja um equipamento que permite reunir condições excepcionais para o desenvolvimento embrionário. Com um sistema de recirculação e filtragem do ar, incubação com três gases e um funcionamento controlado 24 sobre 24 horas, 365 dias por ano, a partir de uma central na Dinamarca, esta incubadora tem uma garantia quase absoluta de estabilidade e a assegura que os embriões se poderão desenvolver de uma forma equilibrada e não sujeita a variações no equilíbrio químico e enzimático que os rodeia.
Em segundo lugar, pelo facto de ter uma câmara de vídeo integrada, o Embryoscope permite a cultura sem manipulação, pois deixou de ser necessária a retirada dos embriões das incubadoras para se proceder à respectiva avaliação morfológica. É por isso uma forma de trabalhar muito mais estável e segura, em que, ao contrário do que sucedia na cultura tradicional, os embriões deixam de ser sujeitos a múltiplos choques térmicos e de variação atmosférica, dos quais demoram mais de uma hora a recuperar (de cada vez que são manipulados). Com este novo sistema de cultura, os óvulos entram no Embryoscope poucos minutos depois de receberem os espermatozóides e os embriões assim obtidos só de lá saem poucos minutos antes de serem transferidos para o útero!
Por último, os vídeos obtidos desta forma (e que só podem ser obtidos com esta tecnologia) permitem observar e avaliar etapas do desenvolvimento embrionário que até há pouco tempo eram completamente desconhecidas e cuja interpretação pode permitir estabelecer a probabilidade de implantação de um embrião, bem como o eventual risco de alterações genéticas. De facto, têm sido publicados nas principais revistas científicas algoritmos de interpretação do desenvolvimento embrionário que mostram que alguns embriões têm probabilidades de implantação superiores a 70%, enquanto que para outros é praticamente impossível dar origem a uma gravidez.
O Embryoscope permite obter imagens de alta resolução dos embriões, em 9 planos diferentes e a cada 15 minutos. Com esta tecnologia, num caso de cultura embrionária até ao quinto dia, a avaliação do potencial de implantação dos embriões é feita com base em mais de 5000 imagens, enquanto que com a cultura tradicional esse processo baseia-se apenas em 5 imagens obtidas no mesmo período de tempo e à custa da exposição dos embriões a variações significativas do meio de cultura que os rodeia.
Assim, podemos dizer que o Embryoscope tem, acima de tudo, duas enormes vantagens: por um lado optimiza de uma forma absolutamente insuperável as condições de desenvolvimento dos embriões (isto é, dá a cada embrião a melhor hipótese possível de sobrevivência) e por outro lado é uma forma de sabermos a verdade, quer esta seja favorável ou desfavorável à concretização dos sonhos dos casais. E embora Voltaire tenha um dia dito que "as verdades são frutos que apenas devem ser colhidos quando bem maduros", quando estamos a falar de decisões que têm impacto na vida das pessoas e na própria forma como estas definem a sua família, quando mais cedo soubermos o que esperar, melhor.
É importante que não nos esqueçamos de que o Embryoscope não faz milagres: um homem e uma mulher que não tenham bons óvulos e espermatozóides dificilmente originarão embriões viáveis. No entanto, o Embryoscope permite por um lado rentabilizar ao máximo os embriões de que dispomos, proporcionando-lhes as melhores condições possíveis para que estes sobrevivam e por outro lado faz com que o grau de certeza com que nos passámos a pronunciar sobre a probabilidade de gravidez de cada casal seja hoje muito mais elevado. 
Com base na informação proporcionada por esta tecnologia é hoje possível ajudar os casais a tomarem decisões importantes relativamente à sua fertilidade de uma forma mais fundamentada, seja porque pode surgir a indicação para se fazerem testes invasivos como o rastreio genético pré-implantação, seja para fundamentar a necessidade de se recorrer a doação de gâmetas, seja ainda para ajudar a escolher os melhores de entre os melhores, permitindo ainda seleccionar os embriões que têm condições mais favoráveis para poderem ser congelados.
Da mesma forma que a invenção do automóvel não representou a extinção da bicicleta, o Embryoscope não virá certamente substituir em absoluto os métodos de cultura tradicionais. No entanto, todos reconhecemos que hoje em dia serão seguramente muito poucos os que fazem grandes distâncias de bicicleta por uma questão de necessidade ou por razões não lúdicas!
Dentro de pouco tempo a morfocinética embrionária e a incubação altamente controlada em 3 gases fará parte do quotidiano de todos os principais centros de Medicina da Reprodução, públicos ou privados, pois esta é, de facto, a melhor forma de assegurar que se fez tudo o que era possível pelo êxito do processo. Os resultados da aplicação clínica do Embryoscope têm sido extraordinários, sendo vários os estudos publicados nas principais revistas cientificas internacionais que demonstram aumentos significativos nas taxas de gravidez dos tratamentos de fecundação in vitro.
O Embryoscope chegou a Portugal em Outubro de 2013 através da Ferticentro, em Coimbra.

Vladimiro Silva
Director do Laboratório de Procriação Medicamente Assistida da Ferticentro